Felipe avançou em direção a ela e a abraçou na altura do pescoço e,já com a voz modificada,disse:
-- Aline,meu amor!
A mulher,assustada,ainda conseguiu virar o corpo, de forma a ficar de frente para ele. Quando ele viu que não era Aline,ficou com um semblante desapontado. A mulher, num tom de voz irritado,disse:
-- Eu não sou Aline, meu nome é Vanessa!
Dessa vez os homens não fizeram nenhum movimento em direção a ele, apenas observando-o. Logo,a mulher mudou o tom de voz para um de sarcasmo e disse:
-- Ah,a rata velha...! Tu é namorado dela? Quer pegar ela?
Felipe não sabia o que responder:
-- Rata velha?
Perguntou,assustado. A mulher complementou:
-- É,rata velha! É como ela é conhecida aqui!
Felipe perguntou,ainda assustado:
-- Por que rata velha?
-- Olha,se você tiver a fim dela,escuta um conselho que eu vou te dar: cuidado com ela,ela não presta,ela é chave de cadeia!
Mas Felipe não estava acreditando muito nas palavras daquela mulher,precisava não acreditar. Por isso,indagou:
-- Chave de cadeia? Como assim? Por que?
E a mulher,sem se abalar com as indagações dele,continuou:
-- É,chave de cadeia! Pra começar, todo mundo diz que ela tem caso com diversos homens ao mesmo tempo! Isso não é problema: eu mesma tenho três! Mas ela gosta mesmo é de bandido,miliciano,traficante,matador! Portou uma arma ela tá dando em cima! E ela é ladra! Dizem também que ela tá com AIDS,sabia?
Diante de tantas informações, agora Felipe não sabia sequer o que perguntar. Apenas ficava calado,ouvindo o que a mulher lhe falava a respeito de Aline.
Depois de cinco minutos ininterruptos falando ( mal) a respeito de Aline,a mulher mudou o tom e o conteúdo da conversa:
-- Vem cá, que que tu acha da gente ir pra um cantinho sossegado conversar outra coisa,um assunto melhor,sem ser essa rata velha desgraçada? Hein!
Disse,enquanto pegava na cintura de Felipe e falava no ouvido dele,quase colando seu corpo ao dele. Mas,ele estava tão entretido pensando em Aline e naquilo tudo que essa mulher havia falado a respeito dela,que nem prestou atenção ao que ela havia perguntado. Então, a mulher repetiu a pergunta. Mas Felipe apenas disse:
-- Não, não, obrigado!
E saiu apressadamente daquele estabelecimento, deixando aquela mulher sem entender nada.
Durante o trajeto à pé, nos ônibus, Felipe ainda pensava em tudo aquilo que havia ouvido e em Aline. Dizia para si mesmo:" não, não, ela não pode ser assim,não é verdade,deve ser mentira daquela lambisgóia, daquela mocreia,ela que deve ser aquilo tudo que ela falou e fala que é o meu amor que é assim. Ela deve ser uma invejosa,isso sim,quer tudo o que o meu amorzinho tem,inclusive eu. Não vê aquela forma oferecida que ela me chamou sem ao menos me conhecer? Nem mesmo pra perguntar meu nome! Uma oferecida,uma puta,uma piranha,uma vagabunda!". Tudo isso com lágrimas nos olhos,quase chorando. Enfim,depois de uma hora e meia de sair daquele estabelecimento, chegou em casa. Nem foi para o quarto: deitou no sofá da sala,ligou a televisão, com o controle remoto que estava no sofá e deitou. Na televisão, estava passando uma comédia romântica.
Deitado no sofá, com um travesseiro entre as pernas,Felipe assistia àquela comédia romântica, imaginando-se como o protagonista e imaginando a mocinha como Aline. Não resistiu muito tempo àquele ambiente com lâmpadas apagadas,com a leve luz do televisor lhe atingindo e,após um beijo entre o protagonista e a mocinha,adormeceu,com os olhos marejados.