Agora Felipe estava sem dinheiro e à pé, no bairro de Bonsucesso,sem saber como chegar em Vilar dos Teles. Como já eram provavelmente dez da noite ou mais -- como iria saber, já que estava sem relógio --, não adiantaria dar calote no trem,já que o ramal Belford Roxo havia encerrado. Pensou em pedir ajuda à sua amada Aline,mas,desistiu da ideia imediatamente. Pensou em pedir dinheiro às pessoas também, mas,desistiu da ideia também, por vergonha. Pensou em pedir carona, mas,não sabia nem qual ônibus ia direto para lá. A ideia de ter que dormir na praça, até esperar o ramal Belford Roxo recomeçar cada vez mais ganhava força em sua mente. Por fim,resolveu sentar num banco,mas,não dormir,esperar acordado mesmo. No entanto,depois de alguns minutos,apesar de sua resistência, foi adormecendo,adormecendo, adormecendo, até ceder completamente ao sono e deitar no banco.
Num momento de descuido do assaltante,Felipe tomou a arma dele e lhe deu um forte chute nos testículos. Ao ver isso,o outro assaltante ligou a moto e fugiu, deixando o colega de crime ali,caído e humilhado no chão, se contorcendo de dor. Então, Felipe,no alto de seus dois metros e vinte atirou na cabeça dele,executando-o à sangue frio. Assoprou a fumacinha que saía do cano da arma e disse:
-- O crime não compensa!
Subitamente vindo de uma esquina apareceu Aline,de vestido vermelho e um ousado decote,correndo em sua direção, gritando " Meu herói ". Ao alcançá-lo,pulou em cima dele e o beijou loucamente,cheia de desejo. Como se estivesse olhando-se como se outra pessoa o estivesse olhando, Felipe percebeu que seu rosto tinha se transfigurado no de um renomado artista de cinema hollywoodiano. Aline,agarrada com as duas pernas a ele,dizia continuamente " meu herói ". Ao olhar para o chão, para o bandido morto,quem ele via? Um inseto gigantesco e nojento.
Botou Aline de pé, no chão e,contemplando o céu, que ia pouco a pouco ficando azul,já que ia amanhecendo,disse mais uma vez,de si para si:
-- Eu sou a Justiça de Deus na Terra,a Sua Poderosa mão que opera e esmaga os maus feitores,os ímpios, os infiéis! Eu Sou!
Dá mais alguns tiros para o alto,até descarregar a arma,joga-a para um canto qualquer e encosta a cabeça de Aline em seu peito,abraçando-a fortemente. Então, sente como se alguém estivesse dando sucessivos tapas em seu rosto,mesmo que leves... Era um policial que o acordava,dizendo:
-- Acorda, vagabundo! Acorda!
E um outro,portando um fuzil,dizia:
-- Esse aí deve tá cheiradão! É o crack!
Assustado,Felipe disse:
-- Seu guarda,eu não sou vagabundo,eu não sou delinqüente...
-- Tá, tá, circulando! Eu não quero ninguém nessa porra aqui não! Se eu te pegar de novo aqui,vou te moer na porrada! Tá entendido?
-- Tá, tá!
Disse assustado,Felipe. Pelo relógio público, pode ver que já eram três da manhã; logo,os trens começariam a circular. Mas,como fazer se não tinha dinheiro? Pedir para passar junto com alguém? Dar um calote? Optou pela primeira e foi em direção à estação de Bonsucesso,aguardar.
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